domingo, 21 de fevereiro de 2010

O músico, a imigrante e o aspirador de pó

“Se você tocar essa música maravilhosa, ela volta!”



Quando alguém diz “filme musical” logo se imagina pessoas dançando com coreografias ensaiadas e canções chatinhas. Apenas um vez (Once -2006) é a quebra dessa imagem. Sem dúvida que se trata de um musical, mas quando for assistí-lo você encontrará mais do que música, são personagens que, unidos por seus próprios medos, se fazem de pontes um do outro para alcançar a felicidade que desejam, mesmo sem saber ao certo onde ela está. E atenção, apesar de minha frase soar melodramática, no filme isso tudo acontece sem que ele seja o típico sentimentalóide.
Apenas uma vez é o encontro de um músico que divide seu tempo entre cantar nas ruas de Dublin e ajudar o pai em uma loja de consertos e uma jovem vendedora de flores imigrante que cuida com muita dificuldade de sua filha. O que permite o encontro dos dois, e a futura parceria na música, será um aspirador de pó estragado... uma bela metáfora sobre os aborrecimentos do dia a dia que são “aspirados” e ficam escondidos ... natural que um dia o aspirador estrague!
As personagens não tem nome e esse detalhe pode passar totalmente desapercebido sem fazer a menor falta, o filme reforça o amadurecimento dos dois que, após alcançarem descanso em suas próprias canções, vão de encontro com seu passado dispostos a mudar seu futuro.
Esse processo lento e ligeiramente doloroso tomará forma nas canções que surgem, não de maneira inesperada como na maioria dos musicais, mas como o resultado de um acúmulo tão grande de sentimento que de repente parece não caber dentro deles... e escapa meio sem querer em forma de música.
Apenas um vez é uma história de amor sem romance, um melodrama sem lágrimas, um encontro que as personagens precisam ter para perceberem o que realmente importa.
O filme gera em nós o mesmo sentimento de um daqueles raros dias em que saímos de casa sem grande pretensões e, de repente, por alguma cena de que foi testemunha ou um pensamento oportunuo, se percebe que nosso mundo foi totalmente mudado, sem que isso gere em nós externamente uma grande revolução.
Apenas uma vez é um filme humilde. A começar pela simplicidade de recursos, foram gastos apenas US$150.000, provando que não é necessário efeitos visuais e ação sem fim para fazer um filme envolvente. Apenas uma vez também ganhou o Oscar de melhor canção original. Confira o trailer legendado clicando aqui , embora já vou logo avisando que o trailer dá a entender um romance que não existe no filme. E para quem ficou mais interessado na música clique aqui para ouvi-la.
E não se preocupe, você vai querer assistir Apenas uma vez mais de uma vez! Eu já vi várias... e... nesse exato momento de deu vontade de assistir novamente.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Algo me diz que não existem Romeus para as Julietas das salas de cinema

"E já não basta ter uma vida longa e feliz ao meu lado?"


Desde que comecei a me interessar por cinema na faculdade mantenho uma mania quase compulsiva de sempre tentar achar algo interessante e digno de reflexão em qualquer filme que assisto não importando se é de arte, uma animação ou um romance água com açúcar. O problema é que às vezes eu me desafio a assistir filmes fraquinhos até o fim na esperança de que algo me chame a atenção... mas geralmente acabo sem conseguir cumprir minha tarefa. Têm filmes que simplesmente só se destacam pela inconsistência não importa o quão grande seja minha teimosia na busca por algo consistente.
O que acho interessante é que esse tipo de filme se justifica a cada minuto nos dá uma época no tempo, apresenta um lugar, um conflito, um romance... tudo como manda o figurino de Hollywood, são aparentemente completos mas, na verdade, são ocos. Tudo faz sentido, nada faz sentido e tudo isso ao mesmo tempo!
No final só posso pensar que é a velha história... há muitas formas de se mostrar um romance: pode-se apelar para um amor quase doentio como em Amor sem fim (1981), um romance sutil e sensível como Amor a flor da pele (2001), um romance sem romance como Apenas uma vez (2006) ou ainda o amor como um sonho bom em Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2003). Têm ainda produções, e tenho que falar porque apesar dos pesares foi esse filme que me fez pensar isso tudo, como Crepúsculo (2008).
Claro que quando assistimos a um filme nos moldes clássicos compramos aquela história e fazemos um pacto silencioso de naquele momento acreditar em tudo. Quando a gente “entra na brincadeira” de um filme temos que estar preparados e dispostos a “engolir” o que vier. Então quando me propus a assisti-lo já sabia o que esperar: vampiros adolescentes!
O problema é que chega uma hora que mesmo acreditando no jogo de faz de conta o filme fica tão... mas tão previsível e meio sem nada a acrescentar que não dá para engolir! Não li a trilogia da Stephanie Meyer... talvez sejam bons livros... mas devo dizer que os filmes... bom... os filmes deixam no espectador a impressão do “eu já vi essa história antes” e é provável que já tenha visto mesmo: as paixões obsessivas, impossíveis e sem motivo. A menina que se apaixona (a primeira vista) pelo “jovem” vampiro de 109 anos (que depois desse tempo todo continua com a mentalidade de 17) e depois vai se dividir com o amor do menino lobisomem é intragável. No final eu simplesmente não tinha absolutamente nada novo para falar sobre esses filmes... tudo já foi dito. Eles se encaixam tão bens nos padrões de cinema de estrutura clássica já conhecidos que não há o que acrescentar.
Sei que o grande público desses filmes são crianças e adolescentes... que adoram fantasias e romances com final feliz, mas mesmo assim eu me pego pensando: que tipo de espectador o cinema de Hollywood forma? Talvez eu simplesmente espere mais do cinema comercial do que ele pode oferecer.
O resultado é esse público juvenil que cresce ouvindo contos de fadas modernos e acreditando em amores fáceis... querendo encontrar fora das telas o que se passa nela! Sonhando com a existência de mocinhos (melhor ainda se forem vampiros vegetarianos) de 17 anos que devem ser Romeus para as coitadinhas das Julietas que lotam as salas de cinema!

P.S.: Não é que os tais filmes de vampiro deram pano para manga?! Vai ver que no final das contas todo filme pode ser desdobrado e tem algo a dizer... mesmo os que não dizem nada ou dizem a mesma coisa que você ouviu inúmeras vezes antes!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não sei o que é... mas quando descobrir não vou contar!

"- Eu não consigo ver nada que não goste em você!
- Mas você verá!
- Mas eu não consigo!
- Mas você verá!"




Assisti Brilho eterno de um mente sem lembranças (2003) muito atrasada... quase todas as pessoas que eu conheço já assistiram esse filme e têm uma opinião formada sobre ele, mas eu não. No último mês o assisti duas vezes e ele me deixa completamente sem palavras! E isso não porque ele seja o máximo do cinema de ruptura e nem o cúmulo do cinema comercial... ele parece estar na medida certa entre os dois extremos.


Tentei escrever vários textos sobre o que é "isso" que me encanta, mas não consegui. Assim acabo de "descobrir" que para mim bons filmes são, também, aqueles que nos deixam sem palavras.
Enfim... não vou me alongar... a essa altura todo mundo entendeu que é um filme que me comove.

Mas fico aqui no meu cantinho me pensando... Brilho eterno de uma mente sem lembranças é simples comparado aos inúmeros filmes de arte... mas em algum lugar... não sei se no casaco laranja, na praia gelada, ou na possibilidade de apagar situações... bom... em algum lugar ele me cativou e me fez pensar. E quando eu descobrir o que é "isso" que me cativa irei escrever o tal bom texto que tanto tentei... mas vou logo avisando... quando fizer minha descoberta vou guardá-la só para mim!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Um filme para chamar de clássico


“Eu sempre dependi da bondade de estranhos”


Depois de assistir a Uma rua chamada pecado (1951) quem não compreende a expressão “clássico do cinema” conseguirá compreender. Em poucos filmes se consegue ver o amor e a obsessão tão bem retratados e interpretados quanto nessa produção que conta com a atriz Vivien Leigh, que ganhou 2 óscars como melhor atriz, e o eterno poderoso chefão, Marlon Brando.
Uma rua chamada pecado narra a chegada de Blanche (Vivien Leigh), uma professora com um passado duvidoso e que tente ora para loucura ora para a dissimulação, na casa de sua irmã Stella e seu violento marido Stanley. O resultado não poderia ser mais desastroso: a fragilidade mental de Blanche é potencializada com os modos rudes do cunhado.
Espere encontrar em Uma rua chamada pecado a intensidade de sentimentos: a fúria, o amor, a loucura, a violência, o jogo de luzes, a casa fechada de teto baixo...
Mas esqueça Stella e Stanley, não sei se essa era a intenção inicial do filme mas Uma rua chamada pecado é definitivamente uma narrativa sobre Blanche. A personagem preenche completamente o filme e os demais personagens acabam diminuídos tanto pela profundidade psicológica de Blanche quando pela atuação impecável de Vivien Leigh.
O que dá ao filme um diferencial de várias outras narrativas cinematográficas que abordam esses temas é a opção por conservar a interpretação dos atores o mais teatral possível enquanto a câmera grava seguindo os moldes de filmagem do cinema clássico. Mesclando essas escolhas do cinema e do teatro, o público se sente completamente dentro da trama. Em uma das cena mais belas Blanche descobre a gravidez da irmã e corre em direção da câmera gerando uma apreensão no espectador, mas antes de que ela consiga “nos alcançar do outro lado” sua irmã Stella cruza a tela e recebe seu abraço.

Aos poucos vamos conhecendo melhor a personagem de Vivien Leigh e nos surpreendendo com suas escolhas do passado e entendendo melhor o que a levou a ter essa personalidade doente. Tudo isso ocorre sem que o filme seja óbvio, na verdade, é bem provável que no final do filme fiquemos sem saber se Blanche é realmente louca ou se está só fingindo ser para não ser julgada por seus erros.
Infelizmente o grande pecado da produção é condensar a maldade extrema na personagem de Stanley tornando-o transparente e superficial. O público irá julgá-lo de maneira muito mais permanente do que a personagem Blanche, talvez pela dissimulação que é uma de suas características mais forte. Apesar desse empobrecimento da personagem de Marlon Brando Uma rua chamada pecado consegue resumir muito bem as características de um clássico do cinema, após assisti-lo aposto que quem desdenha filmes antigos e em preto e branco passará a vê-los com outros olhos!

P.S.: No youtube é possível encontrar vários trechos do filmes, infelizmente todos sem legenda e como as personagens falam muito rápido só os fluentes em inglês conseguirão entender. De qualquer forma deixo o link da cena em que as três personagens estão jantando, mesmo sem entender direito o que eles falam é possível concordar que as atuações são exemplares.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mais que uma bonequinha de Hollywood

“À medida que você envelhecer, você descobrirá que tem duas mãos — uma para ajudar a si mesmo, e outra pra ajudar aos outros”.


Nas minhas andanças em busca de conhecer filmes clássicos encontrei há algum tempo uma atriz magricela que falava com uma voz aveludada e tinha tamanha delicadeza nos gestos que parecia de porcelana. Ela com certeza não é um ícone no que se refere a atuação e eu no começo a achei sem graça e artificial, mas só no começo. Depois de mais alguns filmes e sem me dar conta ia comparando todas as atrizes a tal magricelinha que vi pela primeira vez em Amor na tarde (1957), do meu também querido Billy Wilder.
Para quem não a conhece estou falando de Audrey Hepburn, que para alguns dispensa apresentações, mas que eu não conhecia até uns 3 anos atrás. Comecei a gostar ainda mais da Audrey e acompanhar seus filmes não por ela ser “a eterna bonequinha de Luxo de Hollywood” mas por descobrir, em um documentário sobre a sua vida que no auge de sua carreira ela ficou quase 10 anos afastada do cinema para acompanhar a infância dos filhos. Quem teria essa coragem?
Para mim, Audrey teve uma ingenuidade que a destacou em meio a Marilyn Monroe, Grace Kelly, Ingrid Bergman e tantas outras admiradas atrizes.
Ela mostrou ao mundo que nem só de sensualidade extrema vive Hollywood e que é possível ser lembrada por mais do que isso. Vale lembrar que ela conseguiu esse marco mesmo interpretando uma prostituta em Bonequinha de luxo.
Infelizmente Audrey morreu cedo, com apenas 63 anos, e dedicou os últimos anos de sua vida para ajudar, por meio da UNICEF, crianças do mundo todo... ah se ela estivesse aqui para ajudar essas crianças órfãs do Haiti!
Audrey Hepburn ganhou o Óscar de melhor atriz em 1953 por A princesa e o plebeu.
Para quem quiser conhecer essa grande personalidade do cinema de Hollywood sugiro Sabrina (1954) e Bonequinha de luxo (1961).
O seu filme Minha bela dama (1963) está na íntegra no you tube com legendas em espanhol.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Pisando em ovos


“ – Você não tem prova de nada!
– Mas eu tenho minha certezas!”




Dúvida (2008) traz a tona o tema da pedofilia, que se torna ainda mais delicado quando é inserido no contexto da Igreja Católica. Associar uma instituição religiosa ao cinema ou qualquer outro assunto é usualmente feito com muito cuidado , algo compreensível já que mexe com uma questão que é mantida, muitas vezes, isolada na identidade do público e é um aspecto tão pessoal que, se maculado, já se torna uma ofensa direta.
Assim, quando um jovem negro de 12 anos é admitido em uma escola católica, na era Kennedy, recebe o cargo de coroinha da paróquia e ainda começa a estar sempre próximo do padre principal, a Irmã Aloysius (maravilhosamente interpretada por Meryl Streep) e a inocente Irmã James passam a investigar o relacionamento do rapaz com o Padre Flynn.
Com muita dúvida, temor e cuidado a história é apresentada e o público, aos poucos, faz seus próprios julgamentos que, obviamente, passam por pudores religiosos. O resultado é que o filme fica meio paradinho, com um pé atrás e sem ousar. Dúvida têm longas cenas, recheadas de contraposição entre a luz e as trevas, a claridade, sempre buscada por Aloysius e as sombras por Flynn. O filme corre lentamente e tem uma belíssima cena de 14 minutos, entre as três personagens principais em um jogo de diálogos cheio de simbologias, no qual a principal delas é a do açúcar, representando o pecado. Apesar das metáforas simples, o que torna o filme envolvente é a forma como faz aflorar o direito de duvidar.
No mundo de fora das telas cada vez mais somos estimulados a demostrar segurança em todas as ações, não apresentar dúvida e buscar a auto-suficiência. Abordando esse impasse, Dúvida fala sobre a necessidade de demostrar sinceridade quando não se tem certeza de algo para que, a partir desse processo, se construa certezas realmente sólidas... que em algum tempo podem ser assoladas novamente pelo vento (tão presente no filme) da dúvida que funciona como um quinto personagem capaz de bagunçar as certezas, tirar noites de sono e depois de muito pesar levar a calmaria de novas certezas. Esse é o ciclo que o filme segue.
Dúvida concorreu ao Oscar de melhor atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante (concorrendo com duas atrizes). Apesar de “pisar um ovos” o filme caminha muito bem... até o a última cena... que obviamente eu não vou contar. Mas devo dizer que eu nunca entendo essa necessidade que os filmes têm de “ter um final”... os melhores são justamente os que não têm.
O trailer legendado está disponível em http://www.youtube.com/watch?v=aYCFompdCZA

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Meu primo querido...

“Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; tu não serás atingido”. Sl 91.7

E eu aprendi que quando alguém querido está longe e dentro de uma tragédia que você assiste nos jornais...
não importa o quanto de informação que se tenha, ela sempre será insuficiente e nunca te deixará satisfeito.





Viver isso é capaz de humanizar qualquer jornalista de pedra








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