quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Pisando em ovos


“ – Você não tem prova de nada!
– Mas eu tenho minha certezas!”




Dúvida (2008) traz a tona o tema da pedofilia, que se torna ainda mais delicado quando é inserido no contexto da Igreja Católica. Associar uma instituição religiosa ao cinema ou qualquer outro assunto é usualmente feito com muito cuidado , algo compreensível já que mexe com uma questão que é mantida, muitas vezes, isolada na identidade do público e é um aspecto tão pessoal que, se maculado, já se torna uma ofensa direta.
Assim, quando um jovem negro de 12 anos é admitido em uma escola católica, na era Kennedy, recebe o cargo de coroinha da paróquia e ainda começa a estar sempre próximo do padre principal, a Irmã Aloysius (maravilhosamente interpretada por Meryl Streep) e a inocente Irmã James passam a investigar o relacionamento do rapaz com o Padre Flynn.
Com muita dúvida, temor e cuidado a história é apresentada e o público, aos poucos, faz seus próprios julgamentos que, obviamente, passam por pudores religiosos. O resultado é que o filme fica meio paradinho, com um pé atrás e sem ousar. Dúvida têm longas cenas, recheadas de contraposição entre a luz e as trevas, a claridade, sempre buscada por Aloysius e as sombras por Flynn. O filme corre lentamente e tem uma belíssima cena de 14 minutos, entre as três personagens principais em um jogo de diálogos cheio de simbologias, no qual a principal delas é a do açúcar, representando o pecado. Apesar das metáforas simples, o que torna o filme envolvente é a forma como faz aflorar o direito de duvidar.
No mundo de fora das telas cada vez mais somos estimulados a demostrar segurança em todas as ações, não apresentar dúvida e buscar a auto-suficiência. Abordando esse impasse, Dúvida fala sobre a necessidade de demostrar sinceridade quando não se tem certeza de algo para que, a partir desse processo, se construa certezas realmente sólidas... que em algum tempo podem ser assoladas novamente pelo vento (tão presente no filme) da dúvida que funciona como um quinto personagem capaz de bagunçar as certezas, tirar noites de sono e depois de muito pesar levar a calmaria de novas certezas. Esse é o ciclo que o filme segue.
Dúvida concorreu ao Oscar de melhor atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante (concorrendo com duas atrizes). Apesar de “pisar um ovos” o filme caminha muito bem... até o a última cena... que obviamente eu não vou contar. Mas devo dizer que eu nunca entendo essa necessidade que os filmes têm de “ter um final”... os melhores são justamente os que não têm.
O trailer legendado está disponível em http://www.youtube.com/watch?v=aYCFompdCZA

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