
“Eu sempre dependi da bondade de estranhos”
Depois de assistir a Uma rua chamada pecado (1951) quem não compreende a expressão “clássico do cinema” conseguirá compreender. Em poucos filmes se consegue ver o amor e a obsessão tão bem retratados e interpretados quanto nessa produção que conta com a atriz Vivien Leigh, que ganhou 2 óscars como melhor atriz, e o eterno poderoso chefão, Marlon Brando.
Uma rua chamada pecado narra a chegada de Blanche (Vivien Leigh), uma professora com um passado duvidoso e que tente ora para loucura ora para a dissimulação, na casa de sua irmã Stella e seu violento marido Stanley. O resultado não poderia ser mais desastroso: a fragilidade mental de Blanche é potencializada com os modos rudes do cunhado. Espere encontrar em Uma rua chamada pecado a intensidade de sentimentos: a fúria, o amor, a loucura, a violência, o jogo de luzes, a casa fechada de teto baixo...
Mas esqueça Stella e Stanley, não sei se essa era a intenção inicial do filme mas Uma rua chamada pecado é definitivamente uma narrativa sobre Blanche. A personagem preenche completamente o filme e os demais personagens acabam diminuídos tanto pela profundidade psicológica de Blanche quando pela atuação impecável de Vivien Leigh.
O que dá ao filme um diferencial de várias outras narrativas cinematográficas que abordam esses temas é a opção por conservar a interpretação dos atores o mais teatral possível enquanto a câmera grava seguindo os moldes de filmagem do cinema clássico. Mesclando essas escolhas do cinema e do teatro, o público se sente completamente dentro da trama. Em uma das cena mais belas Blanche descobre a gravidez da irmã e corre em direção da câmera gerando uma apreensão no espectador, mas antes de que ela consiga “nos alcançar do outro lado” sua irmã Stella cruza a tela e recebe seu abraço.

Aos poucos vamos conhecendo melhor a personagem de Vivien Leigh e nos surpreendendo com suas escolhas do passado e entendendo melhor o que a levou a ter essa personalidade doente. Tudo isso ocorre sem que o filme seja óbvio, na verdade, é bem provável que no final do filme fiquemos sem saber se Blanche é realmente louca ou se está só fingindo ser para não ser julgada por seus erros.
Infelizmente o grande pecado da produção é condensar a maldade extrema na personagem de Stanley tornando-o transparente e superficial. O público irá julgá-lo de maneira muito mais permanente do que a personagem Blanche, talvez pela dissimulação que é uma de suas características mais forte. Apesar desse empobrecimento da personagem de Marlon Brando Uma rua chamada pecado consegue resumir muito bem as características de um clássico do cinema, após assisti-lo aposto que quem desdenha filmes antigos e em preto e branco passará a vê-los com outros olhos!
P.S.: No youtube é possível encontrar vários trechos do filmes, infelizmente todos sem legenda e como as personagens falam muito rápido só os fluentes em inglês conseguirão entender. De qualquer forma deixo o link da cena em que as três personagens estão jantando, mesmo sem entender direito o que eles falam é possível concordar que as atuações são exemplares.
