sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Uma dose de desencanto para encantar

“Não há nada que dure. Nem a felicidade, nem o desespero.”



Dizem que bons filmes são os que motivam pensamentos e reflexões mesmo depois de muito tempo em que os assistimos. Bom, se essa afirmação for verdadeira não posso deixar de falar sobre Brief Encounter (1945), título muito bem adaptado para Desencanto. Ao contrário do título em português, o filme desperta um encanto delicado em quem o assiste. Tem um estrutura muito simples e previsível mas que consegue despertar sensações que muito filmes “de arte” jamais conseguiram. Esse é o motivo de dividí-lo com vocês.
O filme é clássico. Isso significa dizer que as falas rápidas e inteligentes, típicas desses filmes, se encadeiam de uma maneira ligeira e ordenada que ficamos um pouco perdidos em meio ao “ping-pong” de informações, especialmente na primeira cena. Mas não para se assistir nesse momento... insista que vale a pena. Grande parte do filme se passa em uma estação de trem um lugar naturalmente triste. Será neste lugar que uma dona de casa que já passou dos 40 anos, Laura, entediada e provavelmente em uma crise de identidade encontra (já sabemos de cara que brevemente pois o título original denuncia) o charmoso médico Alec Harvey que lhe ajudou em um incidente com poeira nos olhos.
A partir daí começa um amizade de dois desencantados, com seus casamentos, com o rumo que suas vidas e que, talvez por dividirem essa desesperança, se tornam amigos. Mas somente a princípio, como devem prever. No desenrolar do filme fica implícito um romance entre eles. Uma espécie de pretexto para darem um pouco de emoção em suas vidas temperadas com tédio. Um amor proibido... assim como sempre vemos no cinema. A estação de trem servirá de testemunha para as juras de amor, os desabafos de culpa e a saudade imensa que os envolve mesmo quando estão juntos.


Não é dificil imaginar o final, especilamente porque estamos falando de um filme de 1945, mas não é o enredo do amor proibido que torna Desencanto encantador, mas sim, os monólogos infantis, sinceros e suaves que Laura têm no decorrer do filme. Ela fala de um temor universal: o medo de mergulhar tão profundamente na rotina que de repente esquece-se de si mesmo, de quem se é ou do que se espera ser.
Desencanto tem algo que é matéria-prima do cinema clássico: os conflitos que nascem não se sabe de onde e que terminam não se sabe porque. Um angústia, um desejo, um medo que inunda as personagens de maneira não justificada. Senti-se infeliz e não se sabe porque... o que seria do cinema sem essas complicações existenciais que invadem as mente dos roteristas em finais de semana ociosos ou em terças-feiras no fim de tarde?
Desencanto deve ser visto pelos diálogos e pela bela atuação de Celia Johnson, no papel de Laura.
Vale por abordar um tema delicado que, apesar de maneira muito inicial e limitada, embala o espectador como um bebê. E no final o põe para dormir… esperando que ele sonhe com sua própria vida e fazendo votos que ele não se torne um desencantado com a alegria rotineira que deveria valorizar. E viva a moralidade que assombra ora como um fantasma, ora como um anjo os belos clássicos pré 1960.

Para os interessados
Desencanto está disponível no youtube com legendas em... bom... arrisco que chinês ou japonês. Mas com áudio em inglês.

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