domingo, 21 de fevereiro de 2010

O músico, a imigrante e o aspirador de pó

“Se você tocar essa música maravilhosa, ela volta!”



Quando alguém diz “filme musical” logo se imagina pessoas dançando com coreografias ensaiadas e canções chatinhas. Apenas um vez (Once -2006) é a quebra dessa imagem. Sem dúvida que se trata de um musical, mas quando for assistí-lo você encontrará mais do que música, são personagens que, unidos por seus próprios medos, se fazem de pontes um do outro para alcançar a felicidade que desejam, mesmo sem saber ao certo onde ela está. E atenção, apesar de minha frase soar melodramática, no filme isso tudo acontece sem que ele seja o típico sentimentalóide.
Apenas uma vez é o encontro de um músico que divide seu tempo entre cantar nas ruas de Dublin e ajudar o pai em uma loja de consertos e uma jovem vendedora de flores imigrante que cuida com muita dificuldade de sua filha. O que permite o encontro dos dois, e a futura parceria na música, será um aspirador de pó estragado... uma bela metáfora sobre os aborrecimentos do dia a dia que são “aspirados” e ficam escondidos ... natural que um dia o aspirador estrague!
As personagens não tem nome e esse detalhe pode passar totalmente desapercebido sem fazer a menor falta, o filme reforça o amadurecimento dos dois que, após alcançarem descanso em suas próprias canções, vão de encontro com seu passado dispostos a mudar seu futuro.
Esse processo lento e ligeiramente doloroso tomará forma nas canções que surgem, não de maneira inesperada como na maioria dos musicais, mas como o resultado de um acúmulo tão grande de sentimento que de repente parece não caber dentro deles... e escapa meio sem querer em forma de música.
Apenas um vez é uma história de amor sem romance, um melodrama sem lágrimas, um encontro que as personagens precisam ter para perceberem o que realmente importa.
O filme gera em nós o mesmo sentimento de um daqueles raros dias em que saímos de casa sem grande pretensões e, de repente, por alguma cena de que foi testemunha ou um pensamento oportunuo, se percebe que nosso mundo foi totalmente mudado, sem que isso gere em nós externamente uma grande revolução.
Apenas uma vez é um filme humilde. A começar pela simplicidade de recursos, foram gastos apenas US$150.000, provando que não é necessário efeitos visuais e ação sem fim para fazer um filme envolvente. Apenas uma vez também ganhou o Oscar de melhor canção original. Confira o trailer legendado clicando aqui , embora já vou logo avisando que o trailer dá a entender um romance que não existe no filme. E para quem ficou mais interessado na música clique aqui para ouvi-la.
E não se preocupe, você vai querer assistir Apenas uma vez mais de uma vez! Eu já vi várias... e... nesse exato momento de deu vontade de assistir novamente.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Algo me diz que não existem Romeus para as Julietas das salas de cinema

"E já não basta ter uma vida longa e feliz ao meu lado?"


Desde que comecei a me interessar por cinema na faculdade mantenho uma mania quase compulsiva de sempre tentar achar algo interessante e digno de reflexão em qualquer filme que assisto não importando se é de arte, uma animação ou um romance água com açúcar. O problema é que às vezes eu me desafio a assistir filmes fraquinhos até o fim na esperança de que algo me chame a atenção... mas geralmente acabo sem conseguir cumprir minha tarefa. Têm filmes que simplesmente só se destacam pela inconsistência não importa o quão grande seja minha teimosia na busca por algo consistente.
O que acho interessante é que esse tipo de filme se justifica a cada minuto nos dá uma época no tempo, apresenta um lugar, um conflito, um romance... tudo como manda o figurino de Hollywood, são aparentemente completos mas, na verdade, são ocos. Tudo faz sentido, nada faz sentido e tudo isso ao mesmo tempo!
No final só posso pensar que é a velha história... há muitas formas de se mostrar um romance: pode-se apelar para um amor quase doentio como em Amor sem fim (1981), um romance sutil e sensível como Amor a flor da pele (2001), um romance sem romance como Apenas uma vez (2006) ou ainda o amor como um sonho bom em Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2003). Têm ainda produções, e tenho que falar porque apesar dos pesares foi esse filme que me fez pensar isso tudo, como Crepúsculo (2008).
Claro que quando assistimos a um filme nos moldes clássicos compramos aquela história e fazemos um pacto silencioso de naquele momento acreditar em tudo. Quando a gente “entra na brincadeira” de um filme temos que estar preparados e dispostos a “engolir” o que vier. Então quando me propus a assisti-lo já sabia o que esperar: vampiros adolescentes!
O problema é que chega uma hora que mesmo acreditando no jogo de faz de conta o filme fica tão... mas tão previsível e meio sem nada a acrescentar que não dá para engolir! Não li a trilogia da Stephanie Meyer... talvez sejam bons livros... mas devo dizer que os filmes... bom... os filmes deixam no espectador a impressão do “eu já vi essa história antes” e é provável que já tenha visto mesmo: as paixões obsessivas, impossíveis e sem motivo. A menina que se apaixona (a primeira vista) pelo “jovem” vampiro de 109 anos (que depois desse tempo todo continua com a mentalidade de 17) e depois vai se dividir com o amor do menino lobisomem é intragável. No final eu simplesmente não tinha absolutamente nada novo para falar sobre esses filmes... tudo já foi dito. Eles se encaixam tão bens nos padrões de cinema de estrutura clássica já conhecidos que não há o que acrescentar.
Sei que o grande público desses filmes são crianças e adolescentes... que adoram fantasias e romances com final feliz, mas mesmo assim eu me pego pensando: que tipo de espectador o cinema de Hollywood forma? Talvez eu simplesmente espere mais do cinema comercial do que ele pode oferecer.
O resultado é esse público juvenil que cresce ouvindo contos de fadas modernos e acreditando em amores fáceis... querendo encontrar fora das telas o que se passa nela! Sonhando com a existência de mocinhos (melhor ainda se forem vampiros vegetarianos) de 17 anos que devem ser Romeus para as coitadinhas das Julietas que lotam as salas de cinema!

P.S.: Não é que os tais filmes de vampiro deram pano para manga?! Vai ver que no final das contas todo filme pode ser desdobrado e tem algo a dizer... mesmo os que não dizem nada ou dizem a mesma coisa que você ouviu inúmeras vezes antes!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não sei o que é... mas quando descobrir não vou contar!

"- Eu não consigo ver nada que não goste em você!
- Mas você verá!
- Mas eu não consigo!
- Mas você verá!"




Assisti Brilho eterno de um mente sem lembranças (2003) muito atrasada... quase todas as pessoas que eu conheço já assistiram esse filme e têm uma opinião formada sobre ele, mas eu não. No último mês o assisti duas vezes e ele me deixa completamente sem palavras! E isso não porque ele seja o máximo do cinema de ruptura e nem o cúmulo do cinema comercial... ele parece estar na medida certa entre os dois extremos.


Tentei escrever vários textos sobre o que é "isso" que me encanta, mas não consegui. Assim acabo de "descobrir" que para mim bons filmes são, também, aqueles que nos deixam sem palavras.
Enfim... não vou me alongar... a essa altura todo mundo entendeu que é um filme que me comove.

Mas fico aqui no meu cantinho me pensando... Brilho eterno de uma mente sem lembranças é simples comparado aos inúmeros filmes de arte... mas em algum lugar... não sei se no casaco laranja, na praia gelada, ou na possibilidade de apagar situações... bom... em algum lugar ele me cativou e me fez pensar. E quando eu descobrir o que é "isso" que me cativa irei escrever o tal bom texto que tanto tentei... mas vou logo avisando... quando fizer minha descoberta vou guardá-la só para mim!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Um filme para chamar de clássico


“Eu sempre dependi da bondade de estranhos”


Depois de assistir a Uma rua chamada pecado (1951) quem não compreende a expressão “clássico do cinema” conseguirá compreender. Em poucos filmes se consegue ver o amor e a obsessão tão bem retratados e interpretados quanto nessa produção que conta com a atriz Vivien Leigh, que ganhou 2 óscars como melhor atriz, e o eterno poderoso chefão, Marlon Brando.
Uma rua chamada pecado narra a chegada de Blanche (Vivien Leigh), uma professora com um passado duvidoso e que tente ora para loucura ora para a dissimulação, na casa de sua irmã Stella e seu violento marido Stanley. O resultado não poderia ser mais desastroso: a fragilidade mental de Blanche é potencializada com os modos rudes do cunhado.
Espere encontrar em Uma rua chamada pecado a intensidade de sentimentos: a fúria, o amor, a loucura, a violência, o jogo de luzes, a casa fechada de teto baixo...
Mas esqueça Stella e Stanley, não sei se essa era a intenção inicial do filme mas Uma rua chamada pecado é definitivamente uma narrativa sobre Blanche. A personagem preenche completamente o filme e os demais personagens acabam diminuídos tanto pela profundidade psicológica de Blanche quando pela atuação impecável de Vivien Leigh.
O que dá ao filme um diferencial de várias outras narrativas cinematográficas que abordam esses temas é a opção por conservar a interpretação dos atores o mais teatral possível enquanto a câmera grava seguindo os moldes de filmagem do cinema clássico. Mesclando essas escolhas do cinema e do teatro, o público se sente completamente dentro da trama. Em uma das cena mais belas Blanche descobre a gravidez da irmã e corre em direção da câmera gerando uma apreensão no espectador, mas antes de que ela consiga “nos alcançar do outro lado” sua irmã Stella cruza a tela e recebe seu abraço.

Aos poucos vamos conhecendo melhor a personagem de Vivien Leigh e nos surpreendendo com suas escolhas do passado e entendendo melhor o que a levou a ter essa personalidade doente. Tudo isso ocorre sem que o filme seja óbvio, na verdade, é bem provável que no final do filme fiquemos sem saber se Blanche é realmente louca ou se está só fingindo ser para não ser julgada por seus erros.
Infelizmente o grande pecado da produção é condensar a maldade extrema na personagem de Stanley tornando-o transparente e superficial. O público irá julgá-lo de maneira muito mais permanente do que a personagem Blanche, talvez pela dissimulação que é uma de suas características mais forte. Apesar desse empobrecimento da personagem de Marlon Brando Uma rua chamada pecado consegue resumir muito bem as características de um clássico do cinema, após assisti-lo aposto que quem desdenha filmes antigos e em preto e branco passará a vê-los com outros olhos!

P.S.: No youtube é possível encontrar vários trechos do filmes, infelizmente todos sem legenda e como as personagens falam muito rápido só os fluentes em inglês conseguirão entender. De qualquer forma deixo o link da cena em que as três personagens estão jantando, mesmo sem entender direito o que eles falam é possível concordar que as atuações são exemplares.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mais que uma bonequinha de Hollywood

“À medida que você envelhecer, você descobrirá que tem duas mãos — uma para ajudar a si mesmo, e outra pra ajudar aos outros”.


Nas minhas andanças em busca de conhecer filmes clássicos encontrei há algum tempo uma atriz magricela que falava com uma voz aveludada e tinha tamanha delicadeza nos gestos que parecia de porcelana. Ela com certeza não é um ícone no que se refere a atuação e eu no começo a achei sem graça e artificial, mas só no começo. Depois de mais alguns filmes e sem me dar conta ia comparando todas as atrizes a tal magricelinha que vi pela primeira vez em Amor na tarde (1957), do meu também querido Billy Wilder.
Para quem não a conhece estou falando de Audrey Hepburn, que para alguns dispensa apresentações, mas que eu não conhecia até uns 3 anos atrás. Comecei a gostar ainda mais da Audrey e acompanhar seus filmes não por ela ser “a eterna bonequinha de Luxo de Hollywood” mas por descobrir, em um documentário sobre a sua vida que no auge de sua carreira ela ficou quase 10 anos afastada do cinema para acompanhar a infância dos filhos. Quem teria essa coragem?
Para mim, Audrey teve uma ingenuidade que a destacou em meio a Marilyn Monroe, Grace Kelly, Ingrid Bergman e tantas outras admiradas atrizes.
Ela mostrou ao mundo que nem só de sensualidade extrema vive Hollywood e que é possível ser lembrada por mais do que isso. Vale lembrar que ela conseguiu esse marco mesmo interpretando uma prostituta em Bonequinha de luxo.
Infelizmente Audrey morreu cedo, com apenas 63 anos, e dedicou os últimos anos de sua vida para ajudar, por meio da UNICEF, crianças do mundo todo... ah se ela estivesse aqui para ajudar essas crianças órfãs do Haiti!
Audrey Hepburn ganhou o Óscar de melhor atriz em 1953 por A princesa e o plebeu.
Para quem quiser conhecer essa grande personalidade do cinema de Hollywood sugiro Sabrina (1954) e Bonequinha de luxo (1961).
O seu filme Minha bela dama (1963) está na íntegra no you tube com legendas em espanhol.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Pisando em ovos


“ – Você não tem prova de nada!
– Mas eu tenho minha certezas!”




Dúvida (2008) traz a tona o tema da pedofilia, que se torna ainda mais delicado quando é inserido no contexto da Igreja Católica. Associar uma instituição religiosa ao cinema ou qualquer outro assunto é usualmente feito com muito cuidado , algo compreensível já que mexe com uma questão que é mantida, muitas vezes, isolada na identidade do público e é um aspecto tão pessoal que, se maculado, já se torna uma ofensa direta.
Assim, quando um jovem negro de 12 anos é admitido em uma escola católica, na era Kennedy, recebe o cargo de coroinha da paróquia e ainda começa a estar sempre próximo do padre principal, a Irmã Aloysius (maravilhosamente interpretada por Meryl Streep) e a inocente Irmã James passam a investigar o relacionamento do rapaz com o Padre Flynn.
Com muita dúvida, temor e cuidado a história é apresentada e o público, aos poucos, faz seus próprios julgamentos que, obviamente, passam por pudores religiosos. O resultado é que o filme fica meio paradinho, com um pé atrás e sem ousar. Dúvida têm longas cenas, recheadas de contraposição entre a luz e as trevas, a claridade, sempre buscada por Aloysius e as sombras por Flynn. O filme corre lentamente e tem uma belíssima cena de 14 minutos, entre as três personagens principais em um jogo de diálogos cheio de simbologias, no qual a principal delas é a do açúcar, representando o pecado. Apesar das metáforas simples, o que torna o filme envolvente é a forma como faz aflorar o direito de duvidar.
No mundo de fora das telas cada vez mais somos estimulados a demostrar segurança em todas as ações, não apresentar dúvida e buscar a auto-suficiência. Abordando esse impasse, Dúvida fala sobre a necessidade de demostrar sinceridade quando não se tem certeza de algo para que, a partir desse processo, se construa certezas realmente sólidas... que em algum tempo podem ser assoladas novamente pelo vento (tão presente no filme) da dúvida que funciona como um quinto personagem capaz de bagunçar as certezas, tirar noites de sono e depois de muito pesar levar a calmaria de novas certezas. Esse é o ciclo que o filme segue.
Dúvida concorreu ao Oscar de melhor atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante (concorrendo com duas atrizes). Apesar de “pisar um ovos” o filme caminha muito bem... até o a última cena... que obviamente eu não vou contar. Mas devo dizer que eu nunca entendo essa necessidade que os filmes têm de “ter um final”... os melhores são justamente os que não têm.
O trailer legendado está disponível em http://www.youtube.com/watch?v=aYCFompdCZA

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Meu primo querido...

“Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; tu não serás atingido”. Sl 91.7

E eu aprendi que quando alguém querido está longe e dentro de uma tragédia que você assiste nos jornais...
não importa o quanto de informação que se tenha, ela sempre será insuficiente e nunca te deixará satisfeito.





Viver isso é capaz de humanizar qualquer jornalista de pedra








Volta logo...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Filmes para amadurecer crianças (?)... e deixar adultos mais infantis

“ – Como você consegue falar sem cérebro?
– Não sei. Mas há muitas pessoas sem cérebro que são faladeiras.”


Filmes clássicos anteriores a 1960 são muito especiais. Eles me fazem sentir saudade de uma época que eu não vivi... e confesso que demorei muito tempo para conseguir chegar a essa conclusão. Para matar essa saudade alguns dias atrás assisti O mágico de Oz (1939). As velhas e repetitivas mensagens de que “tudo vai dar certo no final” e que “tudo o que você precisa está dentro de você” se tornaram clichês há séculos, mas convenhamos que é muito bom voltar a ouvir essas liçõezinhas de moral infantis de um mundo mais simples.
Nesse filme Judy Garland interpreta a jovem e pura Dorothy que, após um tornado, é levada para a “Terra de Oz” onde, além de querer voltar para casa, ela se tornará amiga de um espantalho que quer um cérebro, um homem de lata que busca um coração, e um leão, que sonha ter coragem. Os quatro partem em busca do Mágico que Oz, que na verdade não passa de um “deus” farsante, para que seus pedidos sejam atendidos.
Nesse mundo encantado o filme é colorido e representa a transformação de Dorothy em adolescente lhe mostrando a necessidade de que a ingenuidade não atrapalhe a existência da sagacidade, representada pelos sapatos vermelhos tomados da bruxa malvada, e normas sociais, representadas na regra de “sempre andar na estrada dos tijolos amarelos”.
O mágico de Oz é cheio de musicazinhas infantis e o reforço da ideia de que se deve confiar em si mesmo e que toda a inteligência, as emoções e a força para viver está conosco todo o tempo, mesmo sem nos darmos conta disso. Claro que no mundo real as coisas são bem diferentes... mas...
Para os adeptos de tecnologia já vou logo avisando que o filme é (também) ingênuo para os padrões de hoje. Ele foi inteiramentemente gravado em estúdio com direito a flores de plástico e tudo. Mas mesmo assim vale a pena pelo menos para quem quer conhecer a versão original da famosa canção Somewhere over the rainbow.

Obviamente que essas ingênuas concepções de filme não são modelo de cinema de alta qualidade. Há o constante reforço de uma sociedade cheia de moralidade, regras, culpa e punições.. bla bla bla. Mas mesmo sabendo das suas fragilidades é possível mergulhar nesse mundo mágico. São filmes que nos afagam e reconfortam, ideais para se assistir quando a vida começa a pesar demais…
Quem gosta desse tipo de filme para descansar da realidade (puxa essa afirmação ficou estranha...) sugiro também A fantástica fábrica de chocolate (Willy Wonka and the Chocolate Factory). Mas se for assistir veja a versão de 1971 que é muito melhor do que a recente com o Johnny Deep.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A ironia com quem insiste em ser romântico


“Ele é uma mosca morta, mas uma mosca morta adorável!”


Woody Allen é ácido. Muito mesmo. Por isso o odeio e o amo. Ele é capaz de fazer uma ironia tão trabalhada que os mais ingênuos podem entender justamente o contrário do que ele quis dizer. Um exemplo disto é o seu filme Todos dizem eu te amo (1996). O título serviRIA perfeitamente para um musical bem água com açúcar, e é exatamente isso que Woody Allen faz... com direito a danças bem ensaiadas e personagens desabafando suas amarguras em canções. SeRIA uma linda história de amor se não fosse Woody Allen com sua capacidade de transformar tudo em uma piadinha social ou familiar.

Nesse filme ele escolhe um família rica de Nova Iorque, o seu cenário favorito, com 5 filhos e um ex marido que de tão neurótico fica até simpático e que aparece de tempos em tempos. O filme irá se desenvolver baseando-se em conflitos que são expostos de maneira tão exagerada que pensaRÍAMOS “que pessoas bobas!” se não fosse pela identificação que vira e mexe aparece em nós. Tipos caricaturados como a jovenzinha romântica, o bobo apaixonado, a mãe dedicada e a adolescente que se apaixona facilmente tecem a trama. Confuso seria explicar os embates que existem nesses personagens... só assistindo para entender... e olha lá!

Não sei se por meu olhar estar tão acostumado a presença de Woody Allen como ator em seus filmes que quando ele aparece é impossível não sorrir e ficar curioso com o que virá. Woody Allen rouba a cena não importa em qual filme e em qual personagem. As neuroses humanas são apresentadas, especialmente nas personagens que ele interpreta, tão de perto que facilmente provocarão risos em quem assiste, mas é aquela risada nervosa da identificação com o ridículo.
Woody Allen nos deixa entrar no filme, mas não o suficiente para nos perdermos de nós mesmos, como a grande maioria dos filmes faz, mas para permitir que este envolvimento provoque um incômodo bom de sentir sobre nossa própria vida.

A culpa é transformada em caridade, o amor eterno dura 5 longos dias, a busca pelo amor vira obsessão e a felicidade... bom... no final ela não precisa chegar tão rápido.
Todos dizem eu te amo é ironia do começo ao fim. Altamente recomendado para quem tem estômago para a possibilidade de se ver bem de perto e conseguir rir disso tudo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Óleo de peroba para Boris Casoy ou motivos para não se orgulhar do jornalismo brasileiro (parte 1)


Para quem não viu:
Boris Casoy soltou um comentário durante a vinheta de abertura do jornal da Band no dia 31/12 após a exibição de votos de feliz ano novo de dois garis. Esqueceram o microfone dele ligado:
"que m... dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras" e "dois lixeiros, o mais baixo da escala do trabalho".


Quando a gente acha que o jornalismo já está suficiente cheio de profissionais anti-éticos e cheios de preconceito aparece mais um para "melhorar" a situação. Os jornalistas que apresentam jornais nas televisões assumem um papel de personagem social em uma pseudo busca desenfreada por uma credibilidade que não querem encontrar. A impressão que dá é que ninguém está ali acreditando no que faz, buscando ser melhor ou cumprindo com o dever de informar.
Muitos jornalistas olham todos "do alto de suas bancadas" e acham que têm uma visão de mundo melhor por isso. E o pior é ainda ter que ouvir a risadinha da outra apresentadora enquanto Boris Casoy faz seu infeliz (para dizer pouco) comentário.
O terrível é que ele continuará com a conhecida expressão de paisagem nos próximos jornais da Band.
É a velha história... alguns jornalistas estão precisando comprar óleo de peroba para passar em suas caras de pau.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Alguém que eu queria ter conhecido


“Adoro a televisão. Antes dela, sempre dizia que o cinema era a arte mais vagabunda que existia. Agora já estamos em segundo lugar”.


Billy Wilder é um mestre da comédia, e essa para mim era sua maior virtude. Ele morreu em 2002 aos 95 (!!!) anos de idade... era alguém que eu gostaria de ter conhecido... Agrada-me especialmente as comédias ingênuas, cheias de exageros e situações inacreditáveis, que são capazes de arrancar, pelo menos, sorrisos discretos do mais insensível espectador. Billy Wider ganhou o Oscar de melhor filme em 1960 pelo filme The apartment (Se meu apartamento falasse. Com Jack Lemmon) além de ter sido nomeado várias outras vezes.
É impossível para mim apontar um filme favorito, mas para quem quer conhecê-lo sugiro Some like it hot (Quanto mais quente melhor – 1959. Filme com Marilyn Moore e um dos finais mais engraçados que já vi), caso queira evitar um filme em preto e branco sugiro Irma La douce (Irma la Douce – 1963. Com Shirley MacLaine. Longo, mais muito legal). Ambos com a presença de Jack Lemmon, ator que participou de vários filmes de Wilder, e pelo que li no Google, foi considerado “um ator ideal para dirigir”.

Em seus filmes o que se deseja, se consegue e é possível evitar as tristezas com muito pouco esforço. Sei que muitos dirão que na verdade o cinema dele é ingênuo e quase infantil ficando preso a estrutura clássica e tudo mais. Assistir Billy Wilder é ideal quando se quer entrar em um mundo onde tudo é simples, fácil e suave mas nem por isso previsível.
Tenho que fazer uma ressalva, esse incrível diretor não fazia somente comédias, para citar um exemplo de seus filmes mais sérios, temos o clássississimo Sunset Boulevard (Crepúsculo dos deuses – 1950) Wilder nos mostra uma atriz de cinema que acabou desprezada por não se adequar aos padrões do cinema sonoro. O filme faz uma sutil crítica a realidade de Hollywood da qual Billy participou e estabeleceu sua carreira... um crítica interessante apesar de aparentemente contraditória já que é a ironização de Hollywood por Hollywood. Fica aqui a dica.

Há uma pequena Entrevista com Billy Wilder no youtube. O áudio está em inglês e as legendas em francês.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Uma dose de desencanto para encantar

“Não há nada que dure. Nem a felicidade, nem o desespero.”



Dizem que bons filmes são os que motivam pensamentos e reflexões mesmo depois de muito tempo em que os assistimos. Bom, se essa afirmação for verdadeira não posso deixar de falar sobre Brief Encounter (1945), título muito bem adaptado para Desencanto. Ao contrário do título em português, o filme desperta um encanto delicado em quem o assiste. Tem um estrutura muito simples e previsível mas que consegue despertar sensações que muito filmes “de arte” jamais conseguiram. Esse é o motivo de dividí-lo com vocês.
O filme é clássico. Isso significa dizer que as falas rápidas e inteligentes, típicas desses filmes, se encadeiam de uma maneira ligeira e ordenada que ficamos um pouco perdidos em meio ao “ping-pong” de informações, especialmente na primeira cena. Mas não para se assistir nesse momento... insista que vale a pena. Grande parte do filme se passa em uma estação de trem um lugar naturalmente triste. Será neste lugar que uma dona de casa que já passou dos 40 anos, Laura, entediada e provavelmente em uma crise de identidade encontra (já sabemos de cara que brevemente pois o título original denuncia) o charmoso médico Alec Harvey que lhe ajudou em um incidente com poeira nos olhos.
A partir daí começa um amizade de dois desencantados, com seus casamentos, com o rumo que suas vidas e que, talvez por dividirem essa desesperança, se tornam amigos. Mas somente a princípio, como devem prever. No desenrolar do filme fica implícito um romance entre eles. Uma espécie de pretexto para darem um pouco de emoção em suas vidas temperadas com tédio. Um amor proibido... assim como sempre vemos no cinema. A estação de trem servirá de testemunha para as juras de amor, os desabafos de culpa e a saudade imensa que os envolve mesmo quando estão juntos.


Não é dificil imaginar o final, especilamente porque estamos falando de um filme de 1945, mas não é o enredo do amor proibido que torna Desencanto encantador, mas sim, os monólogos infantis, sinceros e suaves que Laura têm no decorrer do filme. Ela fala de um temor universal: o medo de mergulhar tão profundamente na rotina que de repente esquece-se de si mesmo, de quem se é ou do que se espera ser.
Desencanto tem algo que é matéria-prima do cinema clássico: os conflitos que nascem não se sabe de onde e que terminam não se sabe porque. Um angústia, um desejo, um medo que inunda as personagens de maneira não justificada. Senti-se infeliz e não se sabe porque... o que seria do cinema sem essas complicações existenciais que invadem as mente dos roteristas em finais de semana ociosos ou em terças-feiras no fim de tarde?
Desencanto deve ser visto pelos diálogos e pela bela atuação de Celia Johnson, no papel de Laura.
Vale por abordar um tema delicado que, apesar de maneira muito inicial e limitada, embala o espectador como um bebê. E no final o põe para dormir… esperando que ele sonhe com sua própria vida e fazendo votos que ele não se torne um desencantado com a alegria rotineira que deveria valorizar. E viva a moralidade que assombra ora como um fantasma, ora como um anjo os belos clássicos pré 1960.

Para os interessados
Desencanto está disponível no youtube com legendas em... bom... arrisco que chinês ou japonês. Mas com áudio em inglês.